O interesse pela natureza, e por suas formas que se repetem, dá o tom à trajetória artística de Liana Nigri, cujas bases foram estabelecidas ao longo do profícuo período em que trabalhou como designer de estampas no Brasil e no exterior.

Padrão, diferença e repetição constituem, portanto, elementos-chaves em sua pesquisa desenvolvida durante residência artística no Rio de Janeiro, terra natal à qual a artista retorna após longo período vivendo em Londres e Nova Iorque.

Flores e demais elementos orgânicos desde o princípio informaram a pesquisa têxtil e pictórica da artista, embora apenas mais tarde fossem ganhar a dimensão e a profundidade ora reveladas no trabalho em exibição na galeria da Despina. O que antes possuía valores essencialmente plásticos, acabou por ganhar dimensão científica, orientando sua obra para novos rumos formais e conceituais.

A pesquisa em laboratório, ao lado de biólogos, amparou procedimentos tanto artísticos quanto científicos, os quais viriam a dar corpo ao conjunto de estudos sobre formas naturais, artificiais, humanas ou vegetais atualmente empreendidos por Nigri. O embate entre o real e o simbólico, entre aquilo que é reconhecível e o que nada tem de familiar, bem como entre o que está vivo e o que está morto, são a pedra de toque no processo criativo da artista.

A colônia de bactérias, originalmente utilizada como bio filme para a “clonagem” de formas orgânicas reconhecíveis (folhas), tornou-se matéria-prima para que a artista pudesse desenvolver os estudos embrionários que lhe permitiriam constituir uma segunda-pele, epiderme artificial que guarda as marcas de uma outra vida, desta vez humana. Cicatrizes dotadas de memória física e afetiva tornaram-se material de estudo para a criação de obras que relacionam o espectro de vida do indivíduo à temporalidade dilatada tanto da obra de arte quanto da humanidade em sua trajetória coletiva.

No espaço expositivo da Despina, Liana reconstrói uma espécie de laboratório, no qual tomamos contato com seus instrumentos e tecnologias de trabalho, mas também com os duplos das formas tanto vegetais quanto humanas dissecadas por sua lupa investigativa. Da Costela de Adão (a planta) à cicatriz de Dandara (uma amiga transexual), passando pelo próprio seio da artista, saltamos dos primórdios da cultura humana - via a releitura do mito original de Adão e Eva - ao período atual, no qual os dados da biologia não mais controlam os rumos da natureza. Estamos aqui diante de uma segunda natureza, que Nigri explora de forma afetiva, plástica, política e científica.

Uma das instalações foi desenvolvida em um trabalho colaborativo com Adam Golub, seu parceiro de residência, cujo foco da lente também se orienta para o território especulativo da discussão política sobre identidade, gênero e cultura.

Por Bernardo de Souza, crítico de arte e curador

 

The interest in nature, and its repeated forms, set the tone for the artistic trajectory of Liana Nigri, whose foundations were established throughout the prolific period in which she worked as a print designer in Brazil and abroad.

Pattern, difference and repetition are, therefore, the key elements in the research done during an artistic residence in Rio de Janeiro, the homeland to which the artist returns after a long period living in London and New York.

Flowers and additional organic elements since the beginning apprise the artist's textile and pictorial research, although only later they would gain the dimension and depth revealed in the work at the Despina gallery. What previously possessed essentially plastic values, ended up gaining a scientific dimension, guiding her work to new formal and conceptual directions.

Laboratory research, along with biologists, supported both artistic and scientific processes, which would come to embody a set of studies on natural, artificial, human or vegetal forms currently undertaken by Nigri. The battle between the real and the symbolic, between what is recognizable and what is not familiar, as well as what is alive and what is dead, are the touchstones in the creative process of the artist.

The bacterial colony, originally used as a biofilm to "clone" recognizable organic forms (leaves), became the raw material with which the artist develops embryonic studies that would allow her to develop a second skin, an artificial epidermis that carries marks of another life, this time a human life. Scars with physical and affective memory became study material for the creation of pieces that relate the life spectrum of the individual to the widen temporality of both, the artwork and the humanity in its collective trajectory.

In Despina exhibition space, Liana reconstructs a kind of laboratory, in which we get in touch with her instruments and work technologies, and also with both vegetable and human forms dissected by her research through the magnifying glass. From the rib of Adam (the plant) to Dandara’s scar (a transsexual friend), passing through the breast of the artist, we bounce from the beginnings of human culture - via the reinterpretation of the original myth of Adam and Eve - to the present period in which biological data no longer controls the course of nature. We are then facing a second nature, which Nigri exploits in an affective, plastic, political and scientific way.

One of the installations was developed collaboratively with Adam Golub, a residence colleague, whose lenses also point to the speculative territory of political discussion on identity, gender, and culture.


By Bernardo de Souza, art critic and curator.