“Digamos sim ao que chega, antes de toda determinação, antes de toda antecipação, antes de toda identificação, quer se trate ou não de um estrangeiro, de um imigrado, de um convidado ou de um visitante inesperado, quer o que chega seja ou não cidadão de um outro país, um ser humano, animal ou divino, um vivo ou um morto, masculino ou feminino.” DERRIDA, J. Anne Dufourmantelle convida Jacques Derrida a falar Da Hospitalidade. São Paulo: Escuta, 2003.

Tal qual a elaboração de Derrida, a mostra Segundo Ato é um exercício em diversos níveis sobre hospitalidade, seja em sua gênese, anterior mesmo ao acontecimento em si, em seu processo ou em sua elaboração conceitual. Seis artistas foram reunidos por acasos, amizades, encontros e desencontros, e convidados a participar da residência artística In Context em uma minúscula cidade nas montanhas da Romênia chamada Slanic-Moldova, que alguns diziam ter dois mil habitantes, outros 5 mil, ainda não sabemos ao certo, mas a inconsistência dos dados parece já revelar a familiaridade do local. Não se faz lá muito necessário contar quando se conhece pelo nome.

Chamar alguém a adentrar um espaço tão íntimo é um salto em direção ao desconhecido, uma entrega ao estrangeiro do que lhe é mais caro: sua memória, seus espaços e sua subjetividade. Fazer esse convite é um ato de hospitalidade, aceita-lo é outro.

Uma cidade é um organismo. Como tal, a decisão por invitar seis artistas de uma realidade tão oposta à sua é abrir-se a uma cirurgia, de tal maneira tão violenta que adentra ao campo da cardiologia. É estar de peito aberto ao estrangeiro no sentido mais amplo da palavra. A esses forasteiros é dada a missão de operar e ter o coração de outrem nas mãos. Convidar é hospitalidade, aceitar é ser hospitaleiro para com a subjetividade do outro.

Assim foi a experiência criativa de nos tornarmos a renovação de uma pequena cidade que parece ter brotado na fresta de uma montanha, de glórias passadas e um requinte decadente. Ela nos acolheu, nós a acolhemos e demos guarida uns aos outros. Tornamo-nos um organismo próprio que parece encarnar e desencarnar em curiosos ciclos de vida. Ora juntos e vivos, ora separados e unidos pela memória. A memória que não permite a entrada da ausência de vida, do mofo e do bolor. A memória é o inverno que parece suspender a vida, mas que não passa de hiato.

Nada mais pertinente ao falar de hospitalidade do que pensar no número dois. O segundo. Quando o UM decide abrir-se a um OUTRO e passa a ser DOIS. O segundo hexagrama do I-Ching, “O Receptivo”: uma imagem composta somente por força Yin, de docilidade, abertura, concórdia e diplomacia. Sob essa força reestabelece-se o mesmo grupo, com a mesma robustez, mas em um novo ciclo, um novo verão, uma nova geografia e um novo organismo.

No solstício que marca o recomeço, surge o Segundo Ato. Esses tais mesmos estrangeiros do mundo, entes criativos e hospitaleiros que são os artistas, aceitam uma nova acolhida para estarem abertos, fecundando uma nova experiência de criação em novas montanhas em latitudes opostas. Somos acolhidos na Residência Extemporânea Vírgula no Infinito, que se funda ao pisarmos nesse novo território em Nova Friburgo, em uma nova montanha, e então surge um novo ato dessa criatividade. O Largo das Artes, território que anteriormente já havia acolhido tantos de nós, abre-se em sua hospitalidade para mais uma vez estar à disposição e à fruição de. Eis o Segundo Ato.

Felippe Moraes